Você passa o dia inteiro em pé, caminhando sobre piso duro, subindo escadas ou carregando peso. No final do expediente, a dor no calcanhar é tão intensa que os primeiros passos ao sair da cama na manhã seguinte parecem facas. Ou talvez o tornozelo que torceu no trabalho nunca tenha voltado ao normal, e agora cada passo é um lembrete do que aconteceu.
A pergunta que naturalmente surge é: essa dor é do trabalho? E, se for, quais são meus direitos?
A resposta, como você verá neste artigo, é mais complexa do que um simples sim ou não — e é justamente essa complexidade que torna o tema tão importante. Vamos analisar o que a ciência médica realmente diz sobre a relação entre dores no pé e tornozelo e o trabalho, quais condições têm maior probabilidade de serem reconhecidas como ocupacionais e por que, nessa área específica, a qualidade da argumentação técnica durante a perícia pode ser ainda mais decisiva do que em outros tipos de lesão.
Um Problema Mais Comum Do Que Parece
Dores nos pés e tornozelos são extremamente prevalentes na população adulta. Uma revisão sistemática de 31 estudos, envolvendo mais de 75.000 participantes, revelou que 24% dos adultos de meia-idade e idosos relatam dor frequente no pé e 15% reportam dor no tornozelo. A prevalência tende a aumentar com a idade, e mulheres parecem estar em maior risco.
A lista de condições que afetam essa região é extensa: fascite plantar, tendinose de Aquiles, síndrome do túnel do tarso, artrite do tornozelo, instabilidade articular, hálux valgo (joanete), neuromas, metatarsalgia, deformidade do pé plano, entre muitas outras.
Essas condições causam dor, limitação funcional e, em muitos casos, incapacidade para atividades que exigem permanecer em pé ou caminhar — funções essenciais em inúmeras profissões. E apesar de serem menos frequentes nos processos judiciais do que lesões de coluna ou de membros superiores, quando chegam ao Judiciário, costumam envolver custos elevados. Na indústria de coberturas, por exemplo, pesquisa com mais de 20.000 trabalhadores mostrou que lesões no pé e tornozelo figuram entre a terceira e a quarta categoria mais cara de lesões relacionadas ao trabalho.
O Grande Desafio: Separar o Que É do Trabalho do Que Não É
Aqui está o ponto central — e o que torna as dores no pé e tornozelo particularmente complexas no contexto médico-legal: a separação entre fatores ocupacionais e não ocupacionais é extremamente difícil.
Idade, peso, sexo, tipo de pé, calçados utilizados, atividades recreativas, doenças sistêmicas e outros problemas mecânicos dos membros inferiores — todos esses fatores se sobrepõem e complicam a identificação de uma causa isolada. Um trabalhador de 50 anos com sobrepeso que passa o dia em pé pode ter fascite plantar por causa do trabalho, por causa do excesso de peso, por causa da idade ou — o que é mais provável — por uma combinação de todos esses fatores.
Quando a lesão tem uma causa claramente definida — uma queda, um impacto direto, uma fratura durante o expediente —, a questão da causalidade raramente é contestada. O problema surge nas condições de desenvolvimento gradual: dor crônica no calcanhar, tendinose de Aquiles, disfunção do tendão tibial posterior, artrose do mediopé, metatarsalgia e neuromas. Nesses casos, definir a causa é complexo e, muitas vezes, é isso que determina quem arca com os custos do tratamento e se o trabalhador terá ou não seus direitos reconhecidos.
💡 Você sabia? Grande parte da literatura científica sobre lesões no pé e tornozelo se refere ao esporte, não à ocupação, como fator causal. Existem poucos estudos que analisam especificamente os fatores de risco ocupacionais para a maioria das condições do pé e tornozelo. Essa escassez de pesquisa não significa que o trabalho não possa causar essas condições — significa que a prova exige uma argumentação técnica ainda mais cuidadosa.
Fascite Plantar: A Condição Mais Discutida
A fascite plantar é uma das dores no pé mais comuns e uma das que mais frequentemente chegam a processos trabalhistas. Estima-se que seja responsável por 15% de todas as queixas de pé que levam a busca por atendimento médico, afetando aproximadamente 10% da população ao longo da vida — geralmente adultos acima de 40 anos.
O diagnóstico se baseia em sinais característicos: dor nos primeiros passos da manhã, dor após períodos de repouso e dor localizada no tubérculo medial do calcâneo. É importante que o diagnóstico seja feito corretamente, pois o diagnóstico diferencial inclui dor central no calcanhar, atrofia da almofada do calcanhar e síndrome do túnel do tarso — condições que exigem abordagens diferentes.
O que dizem as evidências sobre causas não ocupacionais?
Alguns fatores de risco têm sustentação na literatura:
Sobrepeso e obesidade — há evidências razoáveis. Estudos de caso-controle encontraram associação estatisticamente significativa entre índice de massa corporal (IMC) elevado e dor plantar crônica em populações não atléticas. Curiosamente, essa mesma associação não foi encontrada em populações atléticas.
Idade — há evidências razoáveis. Diversos estudos, incluindo um grande estudo militar americano, apontam a idade como fator de risco com relação dose-resposta. Porém, a ausência de estudos prospectivos robustos impede conclusões definitivas.
Outros fatores — a relação com redução de dorsiflexão do tornozelo, postura estática do pé, esporão de calcâneo e prática de corrida ainda apresenta evidência insuficiente ou resultados inconsistentes.
E quanto aos fatores ocupacionais?
Aqui está um dado relevante: estudos identificaram que trabalhadores que permanecem em pé durante a maior parte do dia de trabalho têm maior probabilidade de serem diagnosticados com fascite plantar em comparação com quem trabalha sentado.
No entanto, a interpretação desse achado não é simples. Existem duas hipóteses: ficar em pé e caminhar por longos períodos pode ser um verdadeiro fator de risco, ou pode ser que trabalhadores em funções que exigem permanência em pé simplesmente sintam mais dor, procurem atendimento com mais frequência e, por isso, estejam mais representados nos diagnósticos — enquanto trabalhadores sedentários com o mesmo problema podem simplesmente não buscar tratamento.
Essa ambiguidade nas evidências é exatamente o tipo de nuance que define disputas periciais. E é exatamente o tipo de argumento que precisa ser tratado com rigor técnico durante a perícia — tanto para quem quer comprovar o nexo quanto para quem quer negá-lo.
Hálux Valgo (Joanete): Uma Condição Sem Evidência Ocupacional Clara
O hálux valgo — a deformidade popularmente conhecida como joanete — afeta entre 2% e 4% da população e se caracteriza pelo desvio lateral do dedão do pé.
Diferentemente da fascite plantar, os estudos sobre hálux valgo apontam fortemente para fatores genéticos e biomecânicos: 87% dos pacientes em uma série de casos tinham história familiar de joanete, e 95% daqueles com histórico familiar apresentavam a deformidade em ambos os pés. Os fatores mais consistentemente associados são sexo feminino, primeiro metatarso longo, superfície articular arredondada e uso de calçados inadequados.
⚠️ Importante: A pesquisa na literatura não encontrou nenhum estudo associando o hálux valgo à ocupação. Isso não significa que um trabalhador com joanete não possa ter agravamento pela atividade laboral — mas significa que provar o nexo causal exclusivamente ocupacional é, com base nas evidências atuais, extremamente difícil.
Um dado histórico interessante ilustra o papel do calçado: um estudo antropológico analisou restos esqueléticos de cemitérios britânicos medievais. Nos esqueletos do período em que calçados não eram usados habitualmente (séculos IX e X), nenhum apresentava deformidade de joanete. Nos esqueletos de um período em que calçados eram comuns (séculos X e XI), 14 dos 192 esqueletos tinham a deformidade. O calçado, portanto, parece ser fator relevante — mas o calçado de trabalho nem sempre é o único calçado utilizado.
O Que Isso Significa Para Quem Tem Dor no Pé e Acredita Ser do Trabalho?
Vamos ser diretos: a literatura médica atual oferece evidências limitadas para sustentar causas ocupacionais na maioria das condições do pé e tornozelo que não envolvem trauma direto. Isso é um fato que precisa ser reconhecido com honestidade.
Mas isso não significa que o trabalho nunca esteja envolvido. Significa que:
A prova precisa ser construída com ainda mais cuidado. Quando a evidência científica é escassa ou ambígua, a argumentação técnica individualizada se torna ainda mais importante. É preciso demonstrar, caso a caso, como as condições específicas daquele trabalho — tipo de piso, duração da permanência em pé, calçado exigido pela empresa, peso carregado, ausência de pausas — contribuíram para o desenvolvimento ou agravamento da condição.
O conceito de concausa ganha relevância. Mesmo que o trabalho não seja a causa única da dor no pé ou tornozelo, ele pode ter sido um fator que agravou uma condição preexistente ou que acelerou seu desenvolvimento. No Direito do Trabalho brasileiro, a concausa é reconhecida — o que exige que a argumentação técnica seja precisa sobre como o trabalho contribuiu, ainda que não tenha sido a causa isolada.
A investigação clínica precisa ser completa. O médico que avalia o caso deve obter um histórico detalhado: início dos sintomas, mecanismo de lesão, problemas anteriores no pé e tornozelo, tratamentos realizados, tipo de calçado utilizado (no trabalho e fora dele), mudanças nas tarefas exigidas, atividades recreativas, idade, peso e outras condições de saúde. Essa investigação minuciosa é o que permite separar — ou conectar — o que é do trabalho e o que não é.
A Perícia Médica em Casos de Pé e Tornozelo: Por Que a Complexidade Exige Mais Cuidado
Se em lesões de coluna ou membros superiores a prova do nexo causal já é desafiadora, em condições do pé e tornozelo a complexidade é amplificada. A escassez de literatura específica, a sobreposição de fatores ocupacionais e não ocupacionais e a necessidade de análise individualizada tornam a perícia médica um momento particularmente delicado.
O perito precisa ir além do exame clínico padrão. Precisa avaliar as condições concretas de trabalho, o tipo de atividade realizada, o tempo de exposição, os fatores de risco individuais e, fundamentalmente, precisa fundamentar sua conclusão com base na melhor evidência disponível — mesmo quando essa evidência é limitada.
O que muitas pessoas não sabem é que, quando a literatura científica é escassa em determinada área, o espaço para interpretações divergentes entre peritos aumenta significativamente. Dois médicos peritos podem analisar o mesmo caso de fascite plantar em um trabalhador que passa 8 horas em pé e chegar a conclusões opostas sobre o nexo causal — e ambos podem fundamentar suas posições com argumentos técnicos válidos.
É nesse cenário de incerteza que a presença de um profissional médico ao lado do trabalhador — ou da empresa — se torna mais relevante, não menos.
O Papel do Assistente Técnico em Casos Complexos Como Este
Em processos que envolvem dores no pé e tornozelo, o assistente técnico desempenha um papel que vai além do habitual. Quando a evidência científica é abundante, seu trabalho é garantir que ela seja aplicada corretamente. Quando a evidência é escassa — como nesta área —, seu trabalho se torna ainda mais crucial: ele precisa construir uma argumentação técnica individualizada que demonstre, com base nos dados clínicos e ocupacionais do caso concreto, a existência ou ausência de nexo.
Na prática, o assistente técnico em casos de pé e tornozelo:
- Investiga em profundidade as condições de trabalho — tipo de piso, calçado exigido, tempo de permanência em pé, distâncias percorridas, cargas transportadas, disponibilidade de pausas
- Analisa os fatores não ocupacionais com rigor técnico, diferenciando o que é contribuição do trabalho e o que é fator independente — IMC, idade, histórico familiar, atividades recreativas
- Elabora quesitos tecnicamente precisos que obriguem o perito a se posicionar sobre aspectos específicos da exposição ocupacional, em vez de responder de forma genérica
- Avalia criticamente o laudo pericial, verificando se o perito considerou adequadamente todos os fatores — tanto ocupacionais quanto não ocupacionais — e se sua conclusão está fundamentada na evidência disponível
- Produz parecer técnico fundamentado que, quando cabível, demonstre que o trabalho atuou como causa, concausa ou fator agravante — com base em análise individualizada, não em generalizações
O direito ao assistente técnico está previsto no Código de Processo Civil, artigos 465, §1º, II e 466. Em áreas onde a evidência científica é limitada e a margem de interpretação é ampla, esse direito se torna especialmente importante — porque é justamente nesses casos que uma argumentação técnica bem construída pode fazer a diferença entre um nexo reconhecido e um nexo negado.
Conclusão: Evidência Limitada Não Significa Direito Inexistente
As dores no pé e tornozelo ocupam um espaço particular na medicina do trabalho: são condições comuns, frequentemente incapacitantes e, ao mesmo tempo, difíceis de vincular exclusivamente ao trabalho quando não há trauma direto envolvido.
A ciência ainda não oferece respostas definitivas para muitas dessas condições. Mas o Direito não exige certeza absoluta — exige prova suficiente, construída com rigor técnico e aplicada ao caso concreto.
Se você tem dores nos pés ou tornozelos e acredita que o trabalho é um fator — seja como causa principal, seja como agravante —, saiba que a possibilidade de reconhecimento existe, mas depende diretamente da qualidade da prova técnica apresentada no processo. E essa prova começa a ser construída muito antes do dia da perícia.
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